𝗢 𝗧𝗘𝗠𝗣𝗢 𝗤𝗨𝗘 𝗖𝗢𝗥𝗥𝗘
Mas às vezes, raras, mas suficientes vezes, algo o detém.
Há um instante, pequeno, quase secreto, em que percebemos que o tempo já não se demora. Que deixou de repousar nos dias como a luz lenta de um Verão antigo. O tempo, agora, corre. Passa por nós como um viajante que não pede licença. E nós ficamos ali, suspensos no passo, a ouvir o eco da sua pressa.
Na infância, o tempo tinha corpo. Cheirava à terra molhada depois da chuva, às manhãs que ainda sabiam a sonho, às tardes largas que se derramavam devagar peles ruas. Havia uma doçura na espera: pelo Natal, pelo Verão, pelo que vinha com brilho de promessa. A espera era um chão firme. E nós, de pé sobre ele, julgávamos que o tempo não podia falhar.
Mas crescemos.
E o tempo deixou de caminhar: desatou a voar como se tivesse pressa de ser outra coisa. Voou tão depressa que nos perdemos da sombra que lançava. Hoje abrimos o calendário e ele diz Novembro. Ainda ontem era Março, ainda ontem havia planos a nascer. O tempo, esse velho companheiro, tornou-se um exilado apressado, já incapaz de reconhecer o caminho de volta.
Talvez porque, ao crescer, desaprendemos a arte de estar. A vida tornou-se urgente: tarefas, compromissos, horas que se desmancham em ecrãs atentos demais. A infância ensinava-nos a respirar o instante; a idade adulta ensina-nos a sobreviver ao próximo. E assim o tempo passa por nós como um rio demasiado rápido.
Mas às vezes, raras, mas suficientes vezes, algo o detém.
Um abraço mais demorado. Um riso breve. Um jantar sem urgência. A luz a cair devagar. E há um segundo, só um, em que o tempo se suaviza.
O ano voa. Sempre voou. Mas hoje vemo-lo de outro ângulo, mais alto, mais cansado talvez. O tempo não se tornou mais curto; fomos nós que acelerámos o passo. E, nessa pressa, deixámos de ouvir o ritmo discreto dos dias, aquele que só se revela a quem sabe parar.
Talvez crescer seja isto: aprender que não controlamos a velocidade do tempo, apenas a forma como o habitamos. A descobrir que há instantes que não se repetem, e que a vida se mede mais pelo que sentimos do que pelo que cumprimos.
E assim seguimos, não atrás do tempo, mas ao lado dele, aceitando que há dias que passam depressa, outros que se demoram, e que nenhum deles é garantido. E, quando nos permitimos esse entendimento simples, percebemos que não precisamos que o tempo seja infinito.
Basta-nos que seja verdadeiro.
Nuno Mourão
